segunda-feira, 7 de julho de 2008

UM TEXTO INTERESSANTE

NA PRACINHA COM LUISA

- O que ela tem?- Não tem nada. Ela é assim.Passados poucos segundos, a menina curiosa começou a brincar com a Luísa na areia como se no mundo não houvesse paralisia cerebral.Desde então, toda vez que alguém me pede para ficar explicando a deficiência da minha filha, dou uma resposta bem simplificada. A não ser, é claro, em circunstâncias específicas, oportunas. Para essas eu tenho até PowerPoint.Naquele dia, na pracinha perto de casa, disse àquela criança, nas entrelinhas. "Você quer brincar com alguém diferente de você? Se sim, ótimo, seja bem-vinda. Senão, paciência.”A gente tem que entender de genética para brincar com alguém com a cor de pele diferente da nossa? E se a pessoa gosta de namorar com pessoas do mesmo sexo que ela? Vou ter que entender de psicologia comportamental ou de sei-lá-o-quê? E se ela descende de uma comunidade ou etnia muito diferente da minha? Vou ter que estudar história, antropologia e geografia antes de interagir com ela?- Você não tem o seu jeito?, eu disse. Então. Esse é o jeito dela.A garotinha compreendeu rapidamente aquilo que é tão difícil para muitos adultos.Toda vez que eu contratava alguma ajudante lá para casa, vinham aqueles olhos amedrontados suscitando que não iriam dar conta da Luísa. Uma semana depois, Luísa já tinha uma segunda mãe.Os olhares de estranhamento dos vizinhos, ao passar de alguns meses, tornavam-se receptivos. E vinham comentários do tipo:- Nossa, mas ela tá evoluindo tanto. Tô impressionada!E eu pensava cá com os meus neurônios: “Ela não evoluiu tanto assim, você é que se acostumou com ela e agora consegue vê-la.”É verdade, a deficiência grita na frente. Antes que a pessoa por trás dela chegue. A gente vê a deficiência, de cara, e não consegue enxergar mais nada.Por isso, tirando alguns dias em que estou realmente de mau humor, não nutro sentimentos negativos em relação a essas pessoas. Não as vejo como discriminadoras ou preconceituosas. Apenas reagem ao que é diferente da maioria.- Que problema ela tem?- No momento, nenhum. Está tudo bem.Problema é aquilo que tem solução. Deficiência é deficiência. Enquanto não houver o domínio das células-tronco ou de alguma outra tecnologia, não tem como “consertá-la”. Ora, o que não tem solução não é problema.Problema é trazer minha filha à pracinha perto da nossa casa e não ter um brinquedo onde ela possa brincar. Problema é querer comprar uma cadeira de rodas bonita, prática, leve e funcional e não encontrar uma assim no Brasil. Problema é querer adaptar Luísa ao computador e não ter um teclado nacional que seja adequado para quem tem dificuldade motora. Problema é querer passear com ela nas redondezas e não ter uma calçada sem buracos que não torne o nosso passeio um ato perigoso.Há muitos outros problemas que precisam ser solucionados. Com a minha filha está tudo bem. Ela tem uma saúde ótima, um emocional tranqüilo, é bem-educada e cheia de vida. Agora, não posso dizer o mesmo do país onde ela vive.Hoje tenho trauma de pracinha. Só de olhar para aqueles brinquedos, sinto um mal-estar.

Escrito por Cristiane Soares

Lucas Dantas
lucasrdantas@gmail.com

3 comentários:

Natália Forti disse...

Lucas... Adorei seu blog!!Realmente, você mostrou temas bastante abrangentes e interessantes de serem analisados...Percebi que, através deles, mostrou um pouquinho a sua vida...É isso ae!!Parabéns pelo esforço!!Beijos!!

MARIA APARECIDA disse...

TBM TENHO TRAUMA DE PRACINHA... E DE CALÇADAS.. DE ONIBUS.. DE ESCADA ROLANTE.. AFF.. TANTOS E TANTOS TRAUMAS.. PORQUE A CADA DIA QUE PASSA, SINTO QUE ESTOU CADA VEZ MAIS LIMNITADA, PENSANDO DUAS OU TRES VEZES ANTES DE COLOCAR MINHA FILHA NUMA CADEIRA DE RODAS E SAIR PRA PASSEAR!! POIS É.. UMA CADEIRA GRANDE, QUE NEM SEMPRE CABE NOS LUGARES ONDE VOU... TRAUMAS.. TRAUMAS.. DE BANHEIROS, DE ESCOLAS ONDE A INCLUSÃO É UMA MENTIRA.. DE PESSOAS QUE OLHAM PRA GENTE COM TANTA DÓ, E NÃO SABEM O QUE FAZER.. DE GENTE QUE NEM OLHA, PORQUE PARECE TER VERGONHA, SEI LÁ!!!
TRAUMAS.. NEM SEMPRE ESTOU DE BOM HUMOR NÃO.. ULTIMAMENTE, CADA VEZ MENOS... EXPLICAR A DEFICIENCIA ATÉ QUE É FACIL.. EXPLICAR PORQUE NÃO SAIO COM ELA, FICA COMPLICADO...
E CADE O GOVERNO??? TÁ AI??? NÃO, ACHO QUE NÃO!!!
SE EU PUDESSE TER UM CARRO, TALVEZ FOSSE MAIS FACIL??? SERÁ??
INFELIZMENTE ESSA CONDIÇÃO NÃO É PRA TODOS.. EU NÃO TENHO.. FAZER O QUE!!
TER TRAUMAS??? AFF..
ACHO QUE ESTOU CANSADA DE TRAUMAS!!!
TER A ESPERANÇA DE QUE UM DIA AS COISAS SEJAM MELHORES... ESPERANÇA É O QUE SOBRA... E FÉ!!!
DESCULPE O DESABAFO.. MAS NEM TUDO SÃO FLORES EM NOSSAS VIDAS!
BJS AOS TRAUMATIZADOS...

Fabiana disse...

Muito bom esse texto.
Bem realista.
Quando me perguntam vc ja ta melhor?Respondo com outra pergunta, porque eu tava doente?
muito bom mesmo